A Terra já não é plana. Malthus está obsoleto. Não existem sólidos. É hora de abrir os portões mentais da descoberta e explorar nossas verdadeiras potencialidades e tendências abrangentes. Somos capazes de planejar nosso futuro a bordo do Planeta Terra e garantir um alto padrão de vida para toda a humanidade através da aplicação inovadora dos princípios que governam o comportamento da natureza.


“Não há crise de energia. Apenas uma crise de ignorância.” R.B.Fuller

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Domo Geodésico


Exposição Final na Praça do Ciclo Básico - Unicamp
       O domo geodésico (ou cúpula geodésica) foi a obra prima de Buckminster Fuller, que trabalhou em sua popularização e aplicação comercial na construção de habitações ou para cobrir grandes espaços. O domo destaca-se por ser a estrutura mais resistente por quantidade de material já inventada, além de não possuir colunas de sustentação, ser de fácil montagem e tão leve que em muitos casos pode até ser transportada por helicóptero. Atualmente já foram construídos mais de 300.000 domos ao redor do mundo.
Eden Project, Reino Unido, a maior estufa do mundo. Estrutura em aço e recobrimento com plástico inflado.
Exemplo de uma habitação geodésica (Big Bear's Dome Home)
         É claro que, trabalhando numa exposição sobre as ideias de Buckminster Fuller, não poderíamos deixar de montar um domo. No princípio seria um dos 4 objetos de intervenção, de um tamanho humilde, até que num certo momento, em janeiro, nos ocorreu a idéia: por que não um domo que abrigasse a exposição e que as pessoas pudessem entrar dentro? Assim foi que nós, sem nenhuma experiência prévia, nos lançamos ao desafio de projetar e construir um domo geodésico de um tamanho minimamente emocionante. 
Primeiro protótipo (jan/2013) com canudinhos
        A forma geométrica básica para gerar um domo é o icosaedro (poliedro regular de 20 lados). Uma das características mais importantes de um domo é sua frequência, que é gerada pelo número de vezes que se divide um lado do icosaedro, como mostra a imagem abaixo. A frequência define se as "janelas" do domo vão ser maiores ou menores e quanto mair for a frequência, mais esférica será a forma do domo. 
Ilustração da frequência da geodésica gerada a partir do icosaedro
      O segredo que define a transformação do poliedro em uma geodésica acontece quando essa divisão em triângulos menores passa para o espaço 3D, com a alteração do comprimento das linhas internas desenhadas e geração de ângulos, de modo que a forma passa a se aproximar a uma esfera. Uma geodésica de frequência 2 terá dois tipos de tamanho de haste, uma de frequência 3 terá três tipos e assim por diante. 
Ilustração de uma geodésica de frequência 3, em que cada cor representa um tamanho diferente de haste
       Outra característica da geodésica é se ela será uma esfera inteira, ou frações de uma esfera. A geodésica feita para nossa exposição foi de frequência 3, diâmetro de 5 metros e 5/8 de esfera. A altura máxima (no centro) foi de 3,4 metros. Existem fórmulas que relacionam o tamanho das hastes com o diâmetro escolhido. O jeito mais fácil é lançar os dados direto em calculadoras online como as do Domerama. Para quem quiser aprender mais sobre geodésicas recomendamos a clássica e lúdica apostila do Vitor Lotufo e João Lopes disponível para download em 7 partes aqui
     A decisão da frequência e tamanho que seriam ideais para nossa proposta e coubessem no orçamento dependeria dos materiais escolhidos. Decidimos fazer as hastes de bambu tratado, por ser ecológico, resistente, bonito e de baixo custo. O desafio de utilizar bambu é que por ser um material natural é muito difícil conseguir hastes exatamente do mesmo diâmetro, possuindo uma margem de diferença que torna a escolha das junções mais delicada, além de rachar com facilidade, criando a necessidade de um design bem planejado quanto ao aspecto mecânico.
     As junções sempre são o mais difícil ao fabricar um domo geodésico (a nova tecnologia da impressão 3D pode ajudar muito nisso!). Domos comerciais costumam ter junções pré-fabricadas personalizadas conforme o modelo. No nosso caso, após muita pesquisa e testes resolvemos fabricar manualmente junções com tubos de PVC, um processo que acabou revelando-se muito longo e trabalhoso e não recomendamos.  
        Para quem quiser fazer uma geodésica de bambu, um dos jeitos mais práticos é com amarrações. Como queríamos janelas com formatos bem definidos para os pôsteres e facilidade de montar e desmontar já que a exposição poderia ser itinerante, optamos por junções parafusadas. Uma outra forma que talvez funcione melhor é preencher o bambu com cimento (ou outro material que dê suporte ao parafuso) e utilizar chapas anguladas, como mostrado na figura abaixo. 

Um exemplo de junção com cimento e chapas metálicas 
        A construção do domo foi uma verdadeira saga que necessitou da ajuda de muita gente. Desde valiosas dicas, empréstimos de ferramentas, participação nos longos mutirões até o gran finale da montagem no Boulevard do Instituto de Química que virou a madrugada em plena segunda-feira, fomos realmente afortunados com amigos que se envolveram com muito esforço e entusiasmo. Nossa lista de agradecimentos segue no final desta página. Abaixo, uma sequência de fotos do processo. Uma cobertura mais completa de fotos está em nossos álbuns do Facebook






Fabricação das junções: Foram feitas 137 hastes, portanto 274 pontas. O processo envolveu aquecer o tubo hidráulico de PVC até o amolecimento (foi utilizado um soprador térmico), encaixar no bambu, amassar a ponta (que fica externa ao bambu) na morsa, angular (~12º para frequência 3), resfriar em água para fixar a forma, furar e parafusar o tubo no bambu, furar a ponta (furo maior do encaixe das junções), esmerilhar a borda para ficar arredondada e finalmente pintar com tinta spray e verniz.






        A exposição final ficou de 06/05 a 08/06 no Boulevard do Instituto de Química e depois passou uma segunda temporada na praça central da Universidade (Ciclo Básico). Como era ao ar livre funcionava 24h (com iluminação noturna própria instalada pelos funcionários da Oficina de Eletroeletrônica do IQ, aos quais também agradecemos muito!). Na onda dos acontecimentos políticos do mês de junho, o domo foi "sequestrado" para uma ocupação que aconteceu no gramado do Instituto de Artes e serviu de abrigo aos estudantes, sendo depois desmontado. 
       Uma observação importante é que como não foram colocadas hastes nas áreas dos pôsteres (para economizar material já que o domo tinha finalidade apenas expositiva), a estrutura não ficou 100% rígida e portanto não tão resistente quanto um domo completo - que tem uma resistência tremenda pois é uma estrutura sinérgica com perfeita distribuição de tensão. Felizmente não houve relatos de pessoas tentando subir no domo (o que seria muito razoável para um domo) e ele resistiu até o fim do período expositivo.  
       Os 8 pôsteres afixados ao domo podem ser vistos virtualmente aqui (recomendamos para uma imersão em nosso trabalho e no fantástico universo de idéias de Fuller). 

           Por fim, os agradecimentos especiais aos amigos:

Pela orientação:
Flavio Januario
José Carlos Moreno 
Fernando Neiva 
Wilson Florio 
Gabrielle Astier 
Renato M Barboza

Pelas artes gráficas e montagem: 
Diego dos Santos M.Gonçalves (Píi)

Pela pesquisa e montagem: 
Márcia Anaf Wagner 
Felipe Andrade Holanda 

Pelo empréstimo de ferramentas e montagem: 
Ana Lucia Harris
Alfredo Grinaboldi (Nirmal)
Rogério Zanaga
Henrique Priori Polo
Alieth Cavassa
Francisco Oliva de Oliveira
Victor Pontushka

Pelos mutirões de construção e montagem: 
Samuel Fontenelle
Juliana Martins
Beatriz Arruda
Leonardo Glavina
Tiago Bodê
Elisa Miluzzi
Guilherme Alcarde Gallo
Diogo Cristo (Coró)
Patricia Avila (Maiôta)
Alexandre Junqueira
Oscar Mendoza Soria Junior
Pedro Francisco Giuzio
Matheus Lima
Rodrigo Alexandre Costa
Micheli de Paula
Eduardo Cauli
Roberto Vrf

Pelas fotografias:
Tiago Coelho de Campos
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segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Princípio do Trimtab


         Hoje é aniversário de 30 anos da morte de Buckminster Fuller, que faleceu aos 87 anos. Seu túmulo, em Massachusetts, traz os dizeres: "Me chame de Trimtab". Em uma entrevista de 1972, Fuller explica sua metáfora: 
"Something hit me very hard once, thinking about what one little man could do. Think of the Queen Mary -- the whole ship goes by and then comes the rudder. And there's a tiny thing at the edge of the rudder called a trim tab.
It's a miniature rudder. Just moving the little trim tab builds a low pressure that pulls the rudder around. Takes almost no effort at all. So I said that the little individual can be a trim tab.
Society thinks it's going right by you, that it's left you altogether. But if you're doing dynamic things mentally, the fact is that you can just put your foot out like that and the whole big ship of state is going to turn.
So I said, call me 'Trim Tab.'"
         
       Fuller, que foi marinheiro em sua juventude, conhecia bem o trimtab. Uma pequenina peça presente no leme dos navios (e também em aviões) que tem o poder de deslocar toda a gigantesca embarcação. Nesta bela metáfora, como em toda sua filosofia, ele está falando mais do que de si mesmo, pois sua própria vida é uma representação do poder de um indivíduo, todo e qualquer indivíduo. 
          O princípio do trimtab ilustra que um indivíduo pode fazer a diferença, pode guiar o barco. É importante ressaltar que "guiar" não significa estabelecer um caminho dogmático pelo qual será seguido, mas sim tomar atitudes individuais no sentido da famosa frase de Gandhi, "Seja a mudança que você quer ver no mundo". A perspectiva que Fuller nos traz é que essas atitudes podem ter influências bem maiores do que se imagina, pois podem gerar uma onda de impacto que não pode nem mesmo ser prevista. Ele também dizia: 
"Uma das coisas que aprendi foi não tentar convencer ninguém, não tentar vender nada. Você vê o que precisa ser feito e faz."
          Sua filosofia prática era evidentemente radical. Deixou de lado até mesmo as esperanças de que a política pudesse resolver os problemas na humanidade. Antes, acreditava no poder do indivíduo, na integridade e responsabilidade de cada um como a única forma de caminharmos a frente. Três décadas após esta mente tão inspiradora ter nos deixado, fica aqui o convite para que não tenhamos medo do quão grandes os desafios da vida e os problemas pareçam ser, mas que trabalhemos para alavancar nosso poder individual para promover transformações. 
"De fato, é sempre por causa de uma pessoa que todas as mudanças que importam acontecem. Então seja essa pessoa."
           O vídeo abaixo (dublado em português) mostra uma animação em que é possível entender como funciona o trimtab, além de trazer alguns exemplos de como este princípio pode ser aplicado:



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sábado, 15 de junho de 2013

Exposição Virtual

         Bem-vindo ao Universo Visionário de Fuller! Esta é a nossa Exposição Final - em versão virtual. Os pôsters abaixo são parte do domo geodésico construído para o projeto, que ficou exposto no mês de maio no Instituto de Química/Unicamp e agora encontra-se na Praça do Ciclo Básico/Unicamp em sua 2ªtemporada de exposição. Clique nas imagens para ampliar. 









        Fotos da exposição final e da construção do domo geodésico você encontra em nossos álbuns do Facebook.

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domingo, 9 de junho de 2013

Pré-Exposição e Livros

Nosso material de pesquisa, livros e DVDs. Agradecimento especial à Márcia Anaf Wagner (colecionadora) pelos empréstimos e apoio no projeto.
         Para o Circuito das Artes II, um evento em que todos os projetos do Programa Aluno Artista fazem as apresentações finais, o Projeto Universo Visionário de Fuller preparou uma instalação na Biblioteca Central da Unicamp, com os 3 objetos de intervenção (Cobaia B, Espaçonave-Terra e Tensegrity), uma mesa com 5 livros em exposição e marca-páginas para as pessoas levarem para casa, além da exibição de um vídeo. A instalação ocorreu de 26/04 a 03/05/2013.

Exposição de livros na BC
Exibição de vídeo no saguão da biblioteca
     Assista abaixo o vídeo exibido (legendado em português), que consiste de trechos retirados do documentário "Design Ecológico - Inventando o Futuro", incluindo trechos sobre Fuller. O documentário completo também pode ser visto online, em versão dublada. 



       Com o fim da instalação, os livros ficaram expostos na entrada da BAE, Biblioteca da Área de Engenharia e Arquitetura, no 2ºandar da BC, para onde foram doados os 3 livros adquiridos no início do projeto. Os livros foram mantidos como consulta durante o mês de maio durante a Exposição Final no Instituto de Química e estão sendo liberados para empréstimo hoje. Confira abaixo seus nomes e números de chamada. 

Livros expostos na entrada da BAE

  • Baldwin, J. Bucky Works - Buckminster Fuller’s Ideas for Today. 1996.
       Nº de chamada: 620.0092 B193b
     Um ótimo livro introdutório e geral sobre as idéias de R.B.Fuller, destaca suas invenções e traz diversas fotografias. Recomendado para o público em geral. 
  • Edmondson, A.C. A Fuller Explanation - The Synergetic Geometry of R.Buckminster Fuller. 2007. 
        Nº de chamada: 003 Ed58f
     Um fascinante e esclarecedor exemplar para quem deseja mergulhar na ciência da Sinergética e compreender a geometria por trás das invenções e filosofia de R.B.Fuller. Obrigatório para o entendimento do livro Synergetics.

  • Fuller, R.B. Critical Path. 1981.
       Nº de chamada: 801.95 F959c
       Este foi o último livro escrito por R.B.Fuller e resume o trabalho de sua vida inteira em uma análise geral da crise política, econômica, ambiental e ética da humanidade. Um resumo dos principais tópicos pode ser encontrado aqui.

     Além dos livros doados, podem ser encontrados na BC os livros "Manual de Operação para a Espaçonave Terra", que é o único livro em português de R.B.Fuller e um bom resumo de vários aspectos do seu pensamento e "Synergetics - Explorations in the Geometry of Thinking", este último que também pode ser lido neste link, mas que possui uma linguagem bastante complicada, sendo essencial a leitura do livro "A Fuller Explanation" mencionado acima para seu esclarecimento.
    Por fim, recomendamos a visita ao acervo de História da Arte do IFCH onde encontra-se um exemplar do belo livro "Buckminster Fuller: Starting with the Universe" (2008) dos editores Hays e Miller. O livro, feito a partir de uma exposição no Whitney Museum of American Art, traz um tributo apaixonante às idéias de Fuller, incluindo um encarte colorido com reproduções de desenhos originais
        Esperamos que estes livros inspirem muitas mentes e tragam idéias positivas para a comunidade da Unicamp!

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Tensegrity

"Nossos olhos não podem ver as moléculas individuais na delicada bolha de sabão transparente, nem podemos detectar as atrações químicas cordais entre as moléculas. No entando elas existem, explica Fuller, e é nossa responsabilidade entender e ensinar a verdade sobre o Universo. Mais uma vez, sua meta era prover modelos tangíveis para fenômenos de outra forma invisíveis." (Edmondson, A Fuller Explanation)       
 
      O terceiro objeto de intervenção do projeto, o "Tensegrity", chegou à Unicamp junto com o outono, em 5 intervenções distintas. O objeto consiste de 6 bambus suspensos no ar por cabos de aço e como de costume, não veio com instruções. Despertou a curiosidade do público, pois sua estrutura não é familiar por aqui.


"Tensegrity" na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação
"Tensegrity" no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC)
      Mas o que é afinal um Tensegrity? A palavra foi inventada por Fuller como uma contração de "tensional integrity", que é um dos aspectos da Sinergética - a geometria que Fuller criou para expressar a forma como o universo funciona. A Sinergética é uma abordagem matemática completamente nova, que se relaciona com o mundo concreto, fugindo da abstração e de modelos complicados demais para que uma pessoa comum entenda. Mas estamos tão acostumados com uma ciência tremendamente complicada que pode ser difícil, num primeiro momento, passar a pensar de forma simples. Esta era uma das propostas de Buckminster Fuller, que explorou o universo da forma e da estrutura de uma maneira bastante original e percebeu que nosso futuro no planeta Terra depende muito de nossa compreensão da forma como a natureza funciona.

"Needle Tower", uma torre tensegrity de 18m de altura feita por Kenneth Snelson.  1968.
   O objeto "Tensegrity" foi um modelo desenvolvido por um aluno de Fuller, Kenneth Snelson, para ilustrar a combinação de forças de tensão (que puxam) e compressão (que empurram) que a natureza está utilizando e que é a chave para modelar estruturas que otimizam a quantidade de materiais empregada. No Tensegrity existem componentes isolados de compressão (barras) dentro de uma rede contínua de tensão (cabos), o que permite que a força aplicada seja distribuída uniformemente por toda a estrutura e confere resistência à deformação. Essa propriedade também é verificada no domo geodésico - a invenção mais famosa desenvolvida por R.B.Fuller, que é também a estrutura mais forte já construída por quantidade de material.

Domo Geodésico feito para a Expo 67 em Montreal
   Fuller afirma que o Universo, visto em qualquer escala, de átomos à galáxias, é feito de ilhas de compressão num mar contínuo de tensão. Uma de suas mensagens essenciais é de que a humanidade pode aprender muito dos princípios da natureza. Temos feito por milhares de anos construções maciças e pesadas que não se aproveitam desses princípios eficientes. E é aí que começa a ciência do design. 

Leitura recomendada: Edmondson, A.C. A Fuller Explanation - The Synergetic Geometry of R.Buckminster Fuller. 2007. (Disponível na BAE/BC Unicamp - doação do Projeto)

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Quebrando a Casca do Ovo


Intervenção da “Espaçonave-Terra”, a segunda peça de exposição do projeto.
            Agora que definimos, descentralizamos e unimos nossa posição no espaço, é hora de descobrirmos qual é a nossa posição na evolução dos eventos. Fuller define evolução como o desejo natural de cada espécie de viver além de seus recursos. Ora, até agora temos vivido com os recursos abundantes e imediatamente consumíveis de que dispomos em nossa espaçonave. Essa provisão, porém, é finita. Uma analogia pode ser feita com o embrião do pássaro que dentro do ovo possui um suprimento de nutrientes para seu desenvolvimento até certo ponto. Quando o suprimento de nutrientes se esgota, o pássaro, em busca de mais alimento, acaba por quebrar o ovo e tendo condições de locomover-se com suas próprias pernas, descobre um mundo inteiramente novo para seu sustento.
            Na análise de Fuller, a humanidade encontra-se exatamente “sobre os cacos de sua recém quebrada casca de ovo”. Este ponto simboliza um esgotamento dos recursos que temos explorado por tanto tempo e a necessidade de uma nova relação com o universo. É desnecessário enumerar os problemas ambientais e sociais que a humanidade originou em sua relação predatória da natureza ao longo de sua existência. A crítica dos erros e problemas que causamos, porém, não oferece nenhuma solução a eles. Uma nova forma de enxergar as relações do universo é a única possibilidade de deixar para trás as visões supersticiosas e condicionadas do passado.
            A partir deste ponto, nossa sobrevivência depende de nossa capacidade de cuidar de nós mesmos: como o pássaro, ousar voar. O panorama deste vôo é o que vamos contemplar a partir de agora em nosso universo visionário. Um vôo pelas amplas e generalizadas possibilidades do intelecto em suas relações com a natureza. E na tentativa de simultaneamente aprofundar e abranger, poderemos nos tornar o que, como seres humanos, notavelmente temos a capacidade de ser: não especialistas, mas compreensivistas.

            Assim, podemos, pelo processo adequado, descobrir, de modo súbito e excitante, por que aqui estamos vivos no universo, e identificarmo-nos como presentemente aqui operando, a bordo de nossa espaçonave, distribuídos sobre sua plataforma esférica, raciocinando de modo a observarmos, eficazmente, as experiências contemporâneas e locais relevantes ligadas à solução da sobrevivência feliz e próspera da humanidade a bordo de nosso planeta. Podemos, então, descobrir não somente o que precisa ser feito de modo fundamental, mas também como se pode consegui-lo através de nossa própria iniciativa espontânea, empreendida e sustentada sem qualquer autoridade que não a da nossa função no universo, onde o mais ideal é o mais realisticamente prático. 
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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Espaçonave Terra

Eu vi que não havia nada que pudesse me impedir de tentar pensar sobre todo nosso planeta Terra e pensar realisticamente sobre como operá-lo em uma base sustentável como a magnífica espaçonave tripulada por humanos que ele é. - R.Buckminster Fuller
Fuller nos traz a perspectiva de que somos todos astronautas. Nossa pequena Espaçonave Terra tem apenas 12700 km de diâmetro, dimensão desprezível na grande imensidão do espaço. Ela avança a quase 100 mil km/h em seu caminho inexorável em torno do Sol – nossa nave-mãe supridora de energia. “A Espaçonave Terra foi tão extraordinariamente bem criada e projetada que, ao que sabemos, o ser humano tem estado a bordo dela por dois milhões de anos, sem ao menos saber que estava a bordo de uma nave.”

Nossa espaçonave é um veículo mecânico e assim como um automóvel, necessita de manutenções. Mas o fato peculiar sobre ela é que não há um manual de instruções que a acompanhe, o que nos força a usar o nosso intelecto para a operarmos. Assim, como humanidade, estamos aprendendo na prática a como garantir nossa sobrevivência e conduzir viagens seguras aos nossos descendentes. Neste panorama, passamos de meros habitantes a tripulantes, e devemos estar conscientes da finitude de muitos recursos e de como utilizá-los, perceber a infinidade de eventos interligados e nossa responsabilidade sobre cada um deles, além de tantas outras observações e práticas que garantam a boa convivência entre os tripulantes de qualquer embarcação espacial.
É, portanto, paradoxal, embora estrategicamente explicável, como poderemos ver, que até agora tenhamos estado abusando, poluindo, e fazendo mau uso desse extraordinário sistema químico de energia intercambiável para a efetiva regeneração de toda vida a bordo de nossa espaçonave planetária.
Quando vista do espaço, nossa nave tem a interessante propriedade de não possuir referencial de “cima” e “baixo” ou “direita” e “esquerda”. Fuller demonstrou isso em uma projeção cartográfica que ele chamou de mapa Dymaxion, que além de trazer diversas inovações técnicas, como a otimização do planejamento de rotas terrestres, também traz uma perspectiva filosófica bastante peculiar em relação à nossa posição.

Mapa Dymaxion 
A importância da localização geográfica gerou as primeiras tentativas de representação gráfica do território. Com as grandes navegações, isso tornou-se uma necessidade: era imprescindível, para os navegantes, mapas com localizações precisas. Entretanto, essa precisão nunca havia sido alcançada. A projeção cartográfica de Mercator, apesar de ter sido a mais utilizada para navegações marítimas entre os séculos XVI à XVIII, apresenta graves distorções à medida que se afasta da linha do Equador. Por exemplo, a Groenlândia é representada com cerca de 50 vezes o seu tamanho real, gerando a ilusão de possuir território semelhante à África.

Diversas tentativas de correção foram feitas, algumas apresentavam menores discrepâncias nas distâncias territoriais, porém com perda de precisão nos contornos dos continentes. Foi tentando solucionar esses problemas que Fuller desenvolveu o mapa Dymaxion. Sua estratégia foi aproximar o planeta Terra, que é praticamente esférico, a um icosaedro e, a partir disso, obteve uma projeção cartográfica com distorções desprezíveis. Além de ser um mapa com distâncias e contornos verossímeis, revela  a superfície terrestre como uma grande ilha, sem divisão geopolítica entre os continentes. 

Essa nova visão é um meio preciso para enxergar o mundo do ponto de vista dinâmico, cósmico e compreensivista, e uma ferramenta inicial para planejarmos com muito mais precisão nosso futuro comum, a bordo de nossa espaçonave. 

Referências:
- Fuller, R.B. Manual de Operação para a Espaçonave Terra. 1969

- Dymaxion MapBuckminster Fuller Institute
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